Apesar dos biliões de dólares de rendimentos das receitas provenientes da extracção de petróleo, gás e minério, os cidadãos de mais de 50 países ricos em recursos naturais (1) por esse mundo fora, continuam mergulhados na pobreza. Se os governos gerissem essas receitas de forma transparente e efectiva, estas serviriam de base para um crescimento económico sustentado e para uma redução da pobreza. Mas na prática, isto é uma excepção em vez da regra.
Os governos e outras instituições que gerem estes recursos costumam ser fracos e, na prática, não têm de prestar contas aos parlamentos e cidadãos dos seus países. Muitos países ricos em recursos são cleptocracias cujos responsáveis governam pela força para espoliar as receitas da extracção de recursos naturais. O sector extractivo está associado a elevados níveis de corrupção (2). Por vezes, as empresas petrolíferas e mineiras estão implicadas em práticas de corrupção (p. ex., pagamento de subornos), para obterem contratos ou exercerem influência junto de autoridades públicas. É muito frequente, as receitas da extracção de recursos não serem divulgadas pelos governos ou empresas envolvidas e, em alguns casos, essa informação é segredo de Estado. Esta falta de responsabilização facilita o desvio de fundos, a corrupção e a utilização indevida das receitas. Em casos extremos, o acesso aos recursos pode dar azo e estimular os conflitos nacionais e regionais, enfraquecendo ainda mais os governos e as instituições. Esta desordem é aproveitada para facilitar uma apropriação indevida em larga escala dos bens estatais.
A POQP insta a empresas a “publicarem o que pagam” e os governos a “publicarem o que ganham”, como primeira medida indispensável para uma gestão mais responsável das receitas dos recursos naturais. Se as empresas divulgarem o que pagam e os governos divulgarem o que recebem dessas receitas, neste caso, os membros da sociedade civil nos países ricos em recursos naturais terão a oportunidade de comparar ambos os dados e responsabilizar os seus governos pela gestão desta inestimável fonte de receitas. A transparência das receitas ajudará também os grupos da sociedade civil a trabalhar face a um debate democrático sobre a utilização e a atribuição efectiva das receitas dos recursos e das finanças públicas, para estabelecer os objectivos de desenvolvimento, melhorar os serviços públicos e redistribuir o rendimento.
As empresas do sector mineiro, petrolífero e do gás não podem controlar a forma como os governos gastam os impostos, os royalties e as taxas. Porém, devem ter a responsabilidade de divulgar os pagamentos que fazem, para que os cidadãos possam responsabilizar os seus governos. As empresas que assim não procederem, são cúmplices na privação de poder da população dos países a que os recursos pertencem. A transparência irá fortalecer o aspecto social das empresas com “licenças para operar”, demonstrando a sua contribuição económica para a sociedade e aumentar a probabilidade de as receitas que pagam aos governos serem utilizadas para o desenvolvimento sustentável – criando assim um ambiente empresarial estável – em vez de serem consumidas ou desviadas pela corrupção, o que agrava as divisões sociais e poderá conduzir a situações débeis e instáveis e ao conflito.
Hoje em dia, existe um amplo consenso internacional a favor de uma maior transparência no sector extractivo como o demonstra, por exemplo, o enorme apoio de governos, empresas, investidores, instituições financeiras e da sociedade civil em relação à Iniciativa para a Transparência nas Indústrias Extractivas (ITIE) (3). A exigência de divulgação de pagamentos e receitas é consistente com o referido consenso e pode ser executada de forma simples e ajustamentos lógicos na actual lei das sociedades comerciais, normas de contabilidade, regras de publicidade da bolsa e as condições de empréstimos de instituições financeiras internacionais, bancos de desenvolvimento regional, agências de crédito à exportação e bancos privados.
Nesta conformidade, a coligação Publique o Que Paga apela:
Para além destas medidas, as seguintes:
A promoção da transparência das receitas e dos contratos do sector extractivo representa um primeiro passo fundamental para reduzir e atenuar a pobreza dos cidadãos em muitos países em desenvolvimento ricos em recursos naturais em todo o mundo. Isto é inteiramente consistente com os objectivos internacionalmente acordados sobre boa governação, prevenção da corrupção, responsabilização empresarial e desenvolvimento sustentável. Esta transparência responde ao interesse superior de todos os interessados – cidadãos, empresas, governos e comunidade internacional em geral – e, por isso, apelamos a todos os intervenientes que desempenhem o seu papel para a tornar numa realidade.
Junho de 2007
Notas:
(1) A definição de um país “rico em recursos” é extraída do “Guia para a Transparência da Receita dos Recursos Naturais” do FMI. Um país é classificado com base no cumprimento dos seguintes critérios: (i) uma contribuição média das receitas fiscais procedentes de hidrocarbonetos e/ou minérios de pelo menos 25 por cento do total das receitas fiscais durante o período de 2000-2005, ou (ii) uma contribuição média das receitas de exportação de hidrocarbonetos e/ou minérios, no total da receita de exportação de pelo menos 25 por cento durante o período de 2000-2005. http://www.imf.org/external/np/pp/2007/eng/051507g.pdf
(2) De acordo com o Índice Transparency International Bribe Payers (2008), as indústrias do Petróleo/Gás e Mineiras são classificadas em 3º e 5º lugar, respectivamente, em termos de probabilidade de as autoridades públicas exigirem ou aceitarem subornos (p. ex., em relação a concursos públicos, regulamentos, licenciamentos, etc.) nestes sectores de actividade. Do mesmo modo, as indústrias do Petróleo/Gás e Mineira obtêm piores classificações, ou seja 2º e 3º lugar, respectivamente (o que significa que são mais propensas do que outras a influenciar as regras subjacentes do jogo através de pagamentos particulares a autoridades públicas). Para informações mais completas, consulte: http://www.transparency.org/news_room/in_focus/2008/bpi_2008
(3) Consulte : http://www.eitransparency.org/